terça-feira, 20 de setembro de 2016

Resposta à Constância

Hoje me deparei com um comentário de leitora, aguardando publicação, com data de maio deste ano. Sim, faz tempo que estou afastada. A mensagem que não identifica o autor, apenas um pseudônimo, nem deixa email para contato, me pede um conselho. Não sou conselheira, nem psicóloga, tampouco especialista no assunto. Mas não resisto em compartilhar minhas experiências. Além disso, sobre este assunto tenho muita segurança para comentar . 

A moça - sei que é uma mulher porque se referiu a ter sido traída pelo marido, não conseguiu perdoar e está sofrendo por isso. Ela afirma que já assistiu a palestras e  vídeos sobre perdão para aprender a fazê-lo e ainda não conseguiu. 

Como faço para aprender a perdoar?, ela pergunta. E eu respondo. Perdoando. 

Acredite no mandamento da oração mais conhecida do mundo: "Pai, perdoa-me como tenho perdoado àquele que me ofende." Ninguém, absolutamente, nenhum ser humano tem nele mesmo a capacidade de perdoar. Fazemos porque recebemos este ensinamento. Não importa se quem te ofendeu não reconhece que te feriu, perdoe mesmo assim - em oração. 

Não precisa chegar na pessoa, não precisa esperar que ela reconheça o mal que te fez; não adie, não perca tempo. Perdoe. Declare a Deus, em voz alta, que perdoa a pessoa por cada coisa ruim que te atingiu.  Vale até listar todas as mentiras e safadezas do traidor contra você. E, aí, liberte-se dele. 

Depois desta oração, toda vez que seu pensamento voltar-se para os fatos que te entristecem, Retorne à confirmação da oração. "Espírito Santo, eu já perdoei esta pessoa. Haja sobre a minha vida e a dela, conforme a tua vontade na minha vida."

Apenas creia. Vai dar certo. 


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Independência ou ilusão?

Independência  sempre foi uma palavra muito valorizada no meu vocabulário. Chic e necessária, imprescindível. Não sei dizer desde quando, mas meu pai, na minha pré-adolescência, já antevia problemas."Vai ser difícil um marido. Ela é muito independente. Marido não é pai."

O Geraldão, meu pai, dava a maior força, ao modo dele, para os rompantes autônomos da filha e esteve  por perto até o segundo casamento. Sem sua presença, mais um matrimônio. 

Começar e terminar relacionamentos conjugais não era o problema. Mas a disposição de reiniciar sempre deixou de ser o grande barato. Aliás, comecei a me cansar desta repetição. Tornou-se desafio a manutenção do relacionamento, com renovação constante, a perseverança; o ficar para investir em dar certo. 

Então, perseverar e ser independente, do modo como eu sempre me coloquei, tornaram-se possibilidades diametralmente opostas.  Eu já estava muito enrolada e meu terceiro matrimônio indo pro fim! 

E ainda um outro grande equívoco que foi mais difícil de enxergar. Para mim, independência era algo relacionado a não depender financeiramente do marido. E nada mais. Maldita ignorância! Sem depender do companheiro para pagar as contas, podia depender do resto do mundo. 

Tornei-me escrava do trabalho, de chefes ultra mega controladores, do limite bancário, do cartão de crédito, do elogio de falsos amigos, da sobrecarga de incumbências, de filhos nunca satisfeitos e de maridos  dependentes de mim. O perfeccionismo e o medo, aliados a ansiedade por pouco não me dominaram.

Até as minhas próprias contas já me sustentaram. Sim, uma vez só não desisti da minha empresa porque haviam muitas dívidas a serem pagas. Não dever era o meu limite. Minha mãe me educou assim e nisso não foi possível frustrar a dona Ita. Ainda bem.

Sem me dar conta do tamanho do engano à época e na esperança de me desenrolar da confusão sobre a qual não tinha nem noção da magnitude, primeiro, me enrolei mais. Pra começar a fazer diferente, achei que a saída seria tornar-me dependente do meu marido. Burrice. Negação da minha essência e das bençãos de Deus sobre a minha vida, como indivíduo. 

A rápida tentativa - graças a Deus, totalmente fracassada de ser dependente, me fez perceber que antes, na ânsia da independência, arrastei um zilhão de pessoas que bem tranquilamente deixaram-se "depender" de mim. Independência, pura ilusão.

Na verdade, tornei-me prisioneira de um sofisma que eu mesma criei: "sou muito independente, porque todos a minha volta dependem de mim." Só que não. No geral, eu era explorada no duro, mas sob "auto-patrocínio", algo assim como andar com uma tabuleta nas costas: "explore-me". 

No meu conceito, independência deveria corresponder à liberdade. E ser livre foi tudo o que não consegui até aquele momento.

 "Conheceis a verdade e a verdade vos libertará", mais uma vez. E  eram muitas verdades: eu não era independente coisa nenhuma porque muitos faziam questão de depender de mim e isso me prendia; eu não tinha tempo, nem dinheiro, para mim e meus projetos, porque estava sempre comprometida com os outros; eu vivia para os desejos e objetivos de terceiros não para os meus de fato; o casamento tornou-se o piano e eu carregava 95% do peso. Eu estava envelhecendo muito rápido e ficando feia. Eu estava exausta. 

Na exaustão decidi: este é o último casamento. Casei na igreja e alguns anos e crises depois, também no civil.  A decisão de casar na igreja foi para celebrar a aliança que eu já havia feito com Deus. "Senhor, já falhei outras vezes, vou ver se no seu comando a coisa funciona melhor". Eu nem tinha noção de que oração era esta, mas era sincera. E por isso deu certo. 

Passei a crer em frases, que se tornaram verdade, que se tornaram princípios no meu relacionamento: Deus é o cabeça da união conjugal, o que Deus uniu o homem não separa, a primeira aliança de Deus é com a família; Deus renova todas as coisas; é preciso perdoar 70 vezes 7  por dia. 

De repente, depois de 17 anos, a conquista. Somos uma só carne - eu e meu Gordo. O que dói nele, dói mais em mim; o que o alegra, me motiva. Ele tem seus projetos, eu os meus. E nós os nossos. Se eu dependo do meu marido? Não. E nem ele de mim. 

Nas minhas finanças, minha última conquista foi há um ano: fora, cartão de crédito. Comprar o que posso, com o dinheiro que tenho no bolso. Nada de usar o limite da conta bancária. Na minha empresa, primeiro guardar dinheiro para fechá-la, sem dever nada a ninguém se assim der na telha - e Deus me enviou uma sócia que também prefere assim.

De quem eu dependo hoje? Do meu trabalho? Dos meus amados ao meu redor? Da minha empresa? Não. Dependo de Deus, a quem eu amo acima de todas as coisas. E as outras, simplesmente me são acrescentadas. E se não são, não faz mal. Em Deus, nada me falta mesmo. 

Agora eu sou livre... e fiquei mais bonita.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Tonico e a depressão


Antonio Fávero, o Tonico, era meu avô, por parte de mãe. Mineiríssimo, desde que o reconheci nunca mudou de aparência – alto, magro esguio, orelhas e nariz em tamanhos regiamente italianos, olhos pequenos e muito azuis. Elegância era uma marca dele.  Perfumado, sempre. Calças passadas com vinco e camisa impecáveis.

Saiu de Minas, pressionado pelos filhos moços que queriam morar na cidade grande e trabalhar em fábricas. Outra marca: nunca ninguém jamais o viu trabalhando. Antes, porque era filho de fazendeiros do sul de Minas, na época áurea do café. Depois, em São Paulo, passou a ser dependente dos filhos.

Tonico não tinha contas para pagar. Os filhos, de alguma forma, o sustentavam. A vida mansa do Tonico era motivo de chacota entre os netos. Veladamente, porque sempre se exigiu respeito ao Tonico, por ser avô e mais do que isso, pelo simples fato de ser  idoso. Aprendemos a respeitá-lo e, assim,  a qualquer outro na mesma condição, como deve ser.

Tonico era queridíssimo – a figura sempre disposta a contar como havia caçado onças e baleias que matou à unha. Os netos pequeninos brilhavam de admiração diante de tamanhas façanhas; os mais velhos também brilhavam com as lembranças do quanto bem fez um dia terem acreditado nas mesmas histórias. Havia netos de todas as idades porque eram muitos.

Tonico amava andar. Ia de um bairro a outro e, às vezes de uma cidade a outra, entre as casas dos filhos, sempre à pé. Quando a disposição era elogiada,  já emendava que havia, inclusive, ido até à sua cidade natal, distante de São Paulo cerca de 300 quilômetros, da mesma forma. E lá vinha mais um causo.

Quando estava cansado, ficava atentando um dos netos a dar-lhe carona. Pedia até conseguir. Dentro do carro protestava que não ia sem ajudar a pagar o combustível. “Para no posto que eu vou pagar uma xícara de gasolina”.

Tonico era bom garfo, o primeiro a servir-se à mesa, o último a sair dela. Mastigava muito devagar. Amassava o feijão, jogava pimenta em cima, depois salpicava a farinha de mandioca e então, o arroz e o que mais tivesse de mistura. Fazia piadas com os legumes para incentivar a criançada a comê-los.

Tonico, de repente ficou quieto. Não que fosse de muito falar, mas esse silêncio era diferente. Dias e dias se passaram. Tonico levantava-se, arrumava-se e passava o dia sentado no canto do sofá. Sem ver televisão, sem conversar.

Minha tia preocupou-se, provocava alguma reação e nada. Convites para passeios e nada. Era certo que o Tonico, até ele, fora vitimado pela depressão.  Sem ter mais o que fazer, minha tia foi direto ao ponto: “Mas pai, conversa comigo, me diz o que está acontecendo?”  Em resposta, o Tonico foi mais certeiro ainda: “Penso de um jeito não dá, penso de outro também não dá”. Matou a charada, mudou de pensamento e saiu do buraco depressivo.  Grande tonicoterapia!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Ficar e crescer junto

Hoje, no grupo de redação que estou coordenando há duas semanas no meu local de trabalho, tive o atrevimento de ler um texto do Amigoterapia. Há meses – e confiro, há exatos 10 meses, não posto nada.  Concluo: estou muito afastada da minha proposta.

Meu plano é escrever. Escolhi o tema, a forma, o veículo. Divulguei  o blog e curti tanto a repercussão, o apoio dos amigos, o retorno de pessoas que aproveitaram o conteúdo de alguma forma, para refletir. E outros que não aproveitaram nada, mas leram, enfim. Que bom!

Desde quando me propus, vislumbrei o problema oculto dos meus leitores, a falta de disciplina e persistência. Como gosto de começar coisas, imaginar sua cor, formato,  dimensões.

Ver coisas novas nascendo: amo. Trabalhar o desenvolvimento delas, é tão o avesso pra mim.

Essa parte é enfadonha, trabalhosa, pesada. Fico cansada, com preguiça, sem saco. E já desvio o meu olhar para alguma novidade que invento, muito normalmente relacionada a obra. Sim, obra. Tipo reformar, mudar umas paredes de lugar, alterar funções de cômodos, criar outros espaços. Se isso não for possível, uma mega faxina também ajuda.

Gosto muito, muito. E posso dizer aos que reclamam a minha atenção que estou ocupada. E estou mesmo. Todo mundo sabe, todo mundo vê. É perfeito!

Mas estar em obras também cansa. E muito. E mais ainda quando aquilo que ficou “se desenvolvendo” enquanto eu me ocupei, tomou um rumo que simplesmente não era o mais adequado, ou o desejado.

É claro que não posso ser responsabilizada. Aconteceu tudo errado, mas a responsabilidade, é lógico, é de quem estava presente. E eu não estava ali. Não estava nem aí. Quem foi que fez tudo errado desse jeito??

Vai dar muito mais trabalho colocar tudo no lugar – se isso ainda for possível. É melhor se manter presente. Superar a impaciência, a intolerância, a incompreensão e a preguiça, meu saudoso leitor.  E se desenvolver junto .

Ok. Estou de volta. Quero estar presente no amigoterapia. Eu escolhi, fiz nascer. Já pensou se cresce?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rapidinha na amigoterapia


Foto: Marcio D. Trevisan 

Uma empresária em um curso de gestão empresarial. Na apresentação ao grupo, abriu alguns poucos, mas importantes detalhes de sua vida pessoal. No intervalo do café, e diante de um comentário que fiz, ouvi dela o desabafo sobre a traição de um gerente que era de confiança e a roubou. 

A rescisão do contrato não eliminou o problema. O ex-empregado provocou, muito além do prejuízo, uma mágoa profunda que abalava até a disposição dela em continuar o negócio.

Foi assim que fiz esta nova amizade. Dei a dica: a confiança depositada em alguém é algo seu, da sua capacidade de confiar. O tempo demonstrou que o alvo deste crédito não era digno dele. Você não conhece o ensinamento: “Conheceis a verdade e ela te libertará?” Você está livre, agora, porque conhece o desonesto. E deve ter aprendido muito com isso.

Ela me respondeu de pronto com apenas uma palavra e um olhar iluminado. “Saquei”. Duas semanas se passaram. Encontramo-nos de novo no café do intervalo de outra aula. Daí, eu ganhei um abraço.

Sempre achei que as rapidinhas têm seu valor. Na Amigoterapia, também. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sem amigo, não tem amigoterapia

Minha mãe sempre foi popular. Desde quando eu era muito criança, posso lembrar dela como um expoente entre as vizinhas. Ela só ia à casa das amigas, em caso de necessidade delas, uma doença, uma casa pra arrumar. Mas invariavelmente, no meio da tarde, quando a Ita lavava o quintal, acabava desligando a torneira para não desperdiçar água enquanto a fofoca rolava solta.

Eu era muito pequena, mas não gostava nada disso. Era fofoca mesmo! Para a minha mãe, uma falava mal da outra na ausência da outra. Eu achava feio. Mas a parte que mais me desagradava, eram as mulheres reclamando dos próprios maridos. Apontavam tantos defeitos! E depois continuavam com eles.

As horas passavam, a necessidade de fazer “a janta” para os homens que chegavam do trabalho e as crianças que voltavam da escola encerrava a conversa e acelerava a limpeza interrompida. E as esposas seguiam servis, persistentes e confiantes de que tudo melhorava.

Muito radical, nos anos a fio que se seguiram à infância assumi uma aversão a este tipo de papo entre amigas. Reclamação de comportamento do marido foi assunto proibido na minha vida, mesmo com as raríssimas pessoas que compartilharam, de fato, minha intimidade. Não, que eu não tocasse neste assunto. Eu o fazia na profundidade necessária para desviar-me dele.

Muitos resultados decorreram disso. Tantos e tão importantes!

Primeiro, o próprio divórcio. É muito legal você ter as rédeas da própria vida em suas mãos, ter autonomia para decidir e tudo o mais. Mas nunca abrir-se para expor seus sentimentos e pensamentos a alguém de confiança, para – assim, poder ouvir-se e checar-se nas situações é péssimo.

Meus mais queridos amigos chocaram-se  com a novidade do meu primeiro divórcio, mas receio que também devem ter se sentido muito mal em relação a não poderem de modo algum nos ajudar. De qualquer forma, a maioria afastou-se depois disso.

Outra conseqüência importante, neste caso, foi o quanto demorei para entender o meu casamento e a separação. Foram quase cinco anos de casada e mais de quatro anos para chegar a conclusões sobre as tais causas e conseqüências. Era muita coisa acumulada.

E se assim foi, o meu grau de desconhecimento sobre mim mesma e o distanciamento  do caminho  – será que isso estava compreendido antes? – que devia me manter inteira em qualquer relacionamento eram enormes. Foi tão grande, tão gigante que só uma intervenção divina – mais uma, para me socorrer. Deus enviou uma amiga nova, um anjo da guarda que seguirá comigo até o final dos tempos.  

Nesta amizade, fizemos um pacto de autoconhecimento, em respeito e amor. Não falamos mal dos maridos e de outros relacionamentos. Só se for muito necessário – porque ninguém é de ferro, caramba! Mas mantemos o foco no que sentimos diante de todas as situações e de como podemos agir para sermos melhores e mais felizes.

De tudo o que esta amizade me traz, percebi que as mulheres da Rua Coblenza e da minha infância, esposas de operários, sem condições de exercerem nenhuma profissão que tomasse o tempo necessário aos cuidados da casa e dos filhos, precisavam interromper a faxina de vez em sempre e abrirem-se uma com as outras. Esta era uma condição para a persistência e a confiança que as marcavam.

E aí está a qualidade ética destas conversas. No final, a outra ficava sempre sabendo que foi alvo de alguma crítica. Daí, o bafafá desandava até que todas pedissem desculpas e renovassem a disposição de amizade. E renovavam com toda a dimensão desta palavra. As vizinhas da dona Ita mantinham, com o mesmo fervor e sinceridade, a disposição de ajudarem-se – no que era preciso. A maledicência foi sendo expurgada destas rodas. E todas amadureceram, com certeza.

Pelo menos, a dona Ita que não está mais por aqui tornou-se campeã em amizade. Ninguém mais do que ela no quesito fazer e cultivar amizades. Grande ensino. Itaterapia – a melhor.

sábado, 6 de agosto de 2011

Um tumor maligno ensina a viver. Ou não?

Minha mãe e minha irmã. Foto: Talles Andriolli

Três meses que incluíram um atendimento de emergência, uma noite em UTI, uma montanha de exames e dias de sintomas muito esquisitos nos levaram até ali. Ali, era o leito de um hospital. Eu e minha irmã, ao lado da minha mãe que sofreria a primeira – de duas, cirurgia cerebral. Os médicos já haviam nos informado que o procedimento não é mais o monstro que foi até há alguns anos. Tipo assim: deixou de ser um monstro de 12 metros de altura e passou para um monstrinho de uns cinco, que ainda está longe se  ser amarrado em uma coleira.

O motivo do procedimento era bem mais monstruoso. Um tumor com quatro características apenas: invasivo, o mais agressivo existente, maligno e incurável. Naquele momento, minha mãe não tinha todas estas informações, apenas parte delas. A respeito da cirurgia, mais um dado relevante: não completaria um ano.

Então, estávamos nós três ali. Ali era também a nossa história. Ali era o nosso amor. Ali era tudo o que aprendemos. Ali era o início da despedida.

Perguntei às duas que estão entre as mais importantes mulheres da minha vida: como vamos viver isso? Nenhuma resposta porque minha irmã já estava chorando. Segui. Vamos passar como pessoas que tem fé ou como as que não têm? Não, como quem tem fé – veio a resposta unânime. Então, que seja de verdade. Porque quem tem fé acredita que a vida é eterna. E resolvemos passar este tempo, da mesma forma como passamos por quase tudo na minha família: com alegria.

O médico acertou. Da data da intervenção cirúrgica até o falecimento da Ita foram 11 meses. Um período em que nos dedicamos de todas as maneiras a aproveitar a presença da minha mãe e a nossa união com muita, mas muita alegria mesmo. As festas que já eram tradicionais ficaram mais animadas e os nossos encontros – todos muito especiais.

É claro que teve choro, que não faltou angústia de montes, raiva, dor. 

Mas ali - e ali foi um lugar de decisão, escolhemos aproveitar e valorizar o presente. Curtir intensamente. Meu irmão querido, tão sensível, teve coragem e permaneceu conosco. Foi lindo! Aquela decisão, antes de tudo realmente começar, contaminou toda a família – que é gigante, e foi o norte para os nossos sentimentos e relacionamentos. A experiência mais dolorida foi também a mais rica da minha vida.

Ali é hoje. Independente de perdas irreparáveis e pré-anunciadas temos a informação que nos basta: neste lugar, desta maneira, com estas possibilidades de relacionamentos a vida é finita. Ou será preciso um tumor  avassalador para aprender, de fato, a viver? Ou será que nem assim?